domingo, 27 de março de 2016

Cheguei à conclusão que eu sou uma ameba

Como vocês conseguem se importar e viver ao mesmo tempo?

Eu me importo pra caralho mas toda vez que tou vivendo eu penso que se me importasse de verdade estaria fazendo alguma coisa útil em vez de, bem, viver. Então chego à conclusão de que não me importo de verdade. Aí, me convenço de que não me importo. Me convenço de que não iria conseguir fazer nada útil mesmo que me importasse. Então não faço nada mesmo.

Mas na prática, isso não facilita meu viver. Apenas faz com que eu faça tudo com remorso.
Eu podia tar acabando com o racistas e tou aqui lendo um romance inútil. Eu podia tar denunciando abusos e tou aqui jogando esse jogo idiota. Eu podia tar disseminando a revolução e tou aqui deitada encarando a parede. Eu podia tar pregando a autonomia e tou aqui rindo de gifs no tumblr. Eu podia tar destruindo homofóbicos e tou aqui inventando quarenta e duas formas de bagunçar com as gatas.

Como vocês conseguem dormir e se importar com o sexismo? Como vocês conseguem transar e se importar com o racismo? Como vocês conseguem comer e se importar com a homofobia? Como vocês conseguem amar e se importar com a revolução?
Eu me sinto hipócrita. Muito. Tem um ser dentro de mim me julgando dizendo 'Se você se importasse mesmo estaria lá lutando e não aqui vendo série no netflix'. Esse ser passa o dia todo sussurrando varias fitas. E todas elas provam o quanto eu sou inútil, o quanto eu não me importo, o quanto eu sou passiva, o quanto eu não faço e nem farei diferença nenhuma pro mundo.
O dia todo. O tempo todo. Todos os dias. Com meu cérebro me bombardeando de motivos pelos quais não adianta eu fazer nada mesmo, não adianta eu fingir que tou fazendo algo útil aqui e ali de vez em quando. Na prática eu não tou fazendo nada útil. Na prática eu não faço mesmo nada útil porque sei que tudo que sei fazer é inútil.

Eu sou uma pessoa teórica. Se desse pra minha existência estar no plano das ideias ela estaria. Eu estaria. Eu tou sempre pensando. Refletindo. Teorizando. Inventando ideias. Não escrevo nada. Raramento falo pra alguém. [o que é engraçado, porque, de fato, a porcentagem do que eu falo com pessoas em relação ao todo que eu penso é tão pequena, de verdade, muito pequena, apesar de parecer que eu falo muito.] Não estudo nada. Não leio nada. NÃO LEIO NADA. Por Satan! Toda teoria revolucionária que move minha cabeça eu invento dos meus pensamentos, baseados na minha noção de justiça. Eu li uma coisa aqui e ali. Quando eu leio, que é quase nunca, é pra confirmar se realmente essa conclusão que eu cheguei vai de acordo com sei la qual autor de sei lá qual corrente política. Pelo amor de luci, quando eu descobri que Marx não curtia a propriedade privada eu fiquei chocada: 'nooooossa, se pá isso que eu penso é marxismo' [não era]. COMO RAIOS a cabeça de um ser humano pode funcionar desse jeito? Quero dizer. As pessoas normais tem cabeças que não funcionam dessa maneira, certo? Na real eu tou começando a duvidar. Talvez a cabeça das pessoas funcione assim mesmo. Você pensa algo. Fala pra alguém que você pensa algo. Esse alguém te diz que aquele autor já escreveu sobre algo. Aí você lê aquele autor e descobre que concorda com ele.
É assim que as cabeças funcionam? Pra mim faz muito sentido, na verdade. Talvez devesse ser assim mesmo. Apesar de que é possível que pra mim só faça sentido porque minha cabeça funciona assim.

Mas não se empolgue. Eu raramente chego na fase de ler pra tirar a prova efetiva da suposta concordância entre o autor e o meu pensamento. Por isso não sei qual vertente do feminismo eu sigo. Não sei qual vertente do anarquismo eu apoio. Não sei quais autores corroboram com a maioria dos meus raciocínios.Por isso eu não consigo [acho eu] enxergar minhas incoerências. Por isso eu não consigo de fato fazer nada do que acho que deveria ser feito.

É em resumo. Eu não faço nada. Não vou fazer nada. Vou viver de nada. E devia ter escolhido mesmo qualquer outro curso da minha lista de cursos que eu queria fazer por pura curiosidade, devia tar na biologia, na geologia, na química, na física, na matemática, qualquer uma; mas não, eu achei que sociais ia me guiar no sentido da revolução. Hah.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Saudade da minha caneca


Eu sempre reclamo sobre pessoas e sentimentos. Afinal pessoas dão muito trabalho, uma vez que elas tem sentimentos, tem pensamentos, tem vontades, e além do mais há sempre a possibilidade de falha comunicativa. Luci Amado, como é complicado se comunicar com um ser humano. Qualquer frase pode ter duplo significado, qualquer termo levemente tendencioso a ambiguidade pode comprometer toda comunicação. E essa, por sua vez, pode comprometer qualquer coisa. Então, bem, pessoas exigem paciencia, muita. E eu gasto todo meu estoque com a parte comunicativa e quanto a opiniões e vontades, não sobra paciência nenhuma pra parte dos sentimentos.

Que praga essa coisa. Sentimentos. Ninguém devia ter isso. Acho que isso aí é um puta bug no sistema operacional humano que deviam arrumar logo. Não dá mais.
Eu não consigo conceber o quanto os sentimentos são amplos e enraizados nas ações de todas as pessoas. Mas de verdade, em TODAS ações. Até na ausência de ações. Eu, por exemplo, tou sendo movida pela necessidade de proteger meu orgulho - o que eu entendo como um sentimento, uma emoção, ainda que não consiga escolher um nome que bem lhe represente - quando deixo de contar pras pessoas que abalam meu coração que gosto muito delas. Agora, diga-me qual RAIOS é a utilidade de um sentimento desse? Pra nada serve. Pra bagunçar tudo. Ainda que seja difícil ver esse exemplo como um sentimento. A maioria dos sentimentos servem apenas pra complicar relacionamentos interpessoais e causar sofrimento e dor. [E tou dizendo a maioria pelo princípio da incerteza mesmo, não consigo pensar em nenhum que sirva pra algo.]
Se houvesse uma passeata pelo fim das emoções, eu ia com certeza.

Agora, como se não bastassem pessoas e sentimentos, tem instituições. Tipo, ai meu santo capeta, a Família. [Note que na minha visão de instituição também cabem: machismo, etiqueta, ''religião'', e etc] A família é aquela coisa que ta ali, todo mundo sabe como funciona, todo mundo se fode com ela, e todo mundo passa a vida fugindo dela e ainda assim pregando 'ui ui ui familia é a unica que voce pode confiar, ai ai ai familia voce tem que amar bla bla bla'. Acho que é a hipocrisia que mais me irrita, mas enfim. Familia é o treco que faz o universitário que estuda longe voltar nos feriados idiotas pra sentar em volta de uma mesa, comer qualquer coisa junto de alguma forma ritualística cujo significado ninguém sabe, e sofrer com as conversas intolerantes.
Juro, dez minutos em casa e minha vó já tava reclamando de ''cabelo ruim'' de negro. PELOAMORDOSANTOCAPETA
Mas, tá, calma. Foco. Nem toda família é totalmente conflituosa com seus integrantes universitários. Tem famílias que realmente se amam e tal.... será?
Me preocupa um bocado isso. Afinal, eu volto pra SP porque tenho que manter uma relação com meus pais pra poder ver meu irmão, pra que eles me mandem dinheiro e pra satisfazer pequenas saudades. Normalmente saudades da cidade. Eu ainda sinto muita falta de São José dos Campos. As pessoas devem sentir falta de pessoas de suas cidades. Eu não tenho pessoas em SP mais. Digo, conheço pessoas. Mas não tenho mais proximidade pra sair com elas. O QUE É UMA MERDA porque meus pais acreditam piamente que é normal ficar as 48hrs do fim de semana dentro do apartamento passando hipotético ''tempo'' com eles.
Enfim, é, as pessoas tem saudades de parentes, amigos, da cidade, dos rolês, sei lá. Mas vocês já pararam pra apreciar a saudade das coisas? Acho que todo mundo deve ter saudade de umas coisas. Eu parei pra notar hoje o quanto eu senti falta da minha caneca. Ela é preta e vermelha s2. Ela tem uns kanji japonês escritos, que eu não faço a menor ideia do que são, e ela tem um par branco. Branca e vermelha a outra. Eu nao sei porque senti falta mais de uma do que da outra. As duas são e não são minhas, como tudo nessa casa e de ''minha posse'', meus pais compraram com o dinheiro deles então eles que determinam o que eu posso ou não chamar de meu. Nos tempos primordiais da compra - ou talvez tenha sido um presente - a caneca preta era de papai e a branca de mamãe. Nada haver. Eu que uso as duas, e só uso elas e nada mais. NA PRÁTICA SÃO MINHAS.
Eu senti tanta saudade dessa caneca que quase abracei ela antes de enchê-la de coca. Na real, capaz de eu ter feito isso sim, não lembro.
De qualquer forma. OLHA ISSO. Um sentimento tão forte e profundo quanto saudade, assim, inutilmente associado a objetos materiais sem nenhuma história marcante ou significativa. Me diz se esse treco não é um bug que precisa arrumar. Cade a atualização do homo sapiens? quando sai o 2.0? Tá na hora. E olha. Esse não é o único bug. É só o único sobre o qual eu tenho paciência pra discorrer sobre no momento.

>> Só pra testar, pessoas fofas que curtem Death Note e eram apaixonadas pelo L travavam com a musica tema assim como eu? MANO, eu dava um puta overheating e parava de funcionar, sério, rolava até umas convulsão emocional. Não pode isso não. Precisa atualizar o sistema.
Eu morri quando descobri essa tubular bells: The Exorcist // L Theme Song <<

Como quebrar uma sagitariana

O cara me quebrou.
Eu tou quebrada.
Dois rolês e o cara me quebra. Pode isso?
Eu já estive quebrada antes, no nível depressão contagiosa. Tipo, beeem quebrada.
Mas cara. A quebradura aqui ta passando dos limites, eu tou ficando lunática.
Não é justo. Paixonites são coisas que devem ser temporárias.
E não faz sentido nenhum. O cara não tem nada demais.
Mas essa que é a fita, ele usou das malandragem, certeza.
Ah pararará senta aqui vamo se pegar, ok, foi bom, tchau - faz você pensar que não foi nada aí boom, aparece noutro role de novo, deixando muito claro muito bóvio que que ele quer - aí, pá, pega um pouquinho, troca umas ideia, pega um pouco mais - faz você pensar que ta rolando algo daora, desperta um interesse - e aí tcham tcham tcham, some - onde tinha interesse não tem mais, migué aqui e ali, sumida forever - pronto fodeo
PUTAQUEOPARIL melhor técnica pra quebrar uma sagitariana
MIGO FALA SÉRIO, HAJA MALDADE NO CORAÇÃO, TUDO TEM LIMITES
Ce não pode quebrar uma sagitariana desse jeito, é tipo profanar o mais sagrado dos túmulos, sei lá.
Meu coração não guenta, explode, esparrama, contamina todo sistema periférico e nem me fale dos danos no sistema nervoso central.

Tou de boa, no banho, sonhando com as fitas perfeitas pra se iniciar a revolução, fantasiando mesmo. Eu faço isso. Fico narrando como se tivesse lendo um livro. Aí tou lá eu fantasiando sobre rolês, imaginando as coisas acontecendo feito filme e de repente eu termino com desfecho a la cinderela. MAS QUE PORRA. Sério. Não dá. Não aguento isso.
Por que fazer isso comigo? Me diz. É por maldade só? Algum tipo de vingança? É algum score machistão? Quantas corações de minas de cabelo colorido eu consigo destruir em um ano. Self Bet.
Que que é? Pode ser da natureza do ser. Eu entendo. Evil nature, Tenho também. Sei como é, mas pow, rola umas misericórdia de vez em quando, não? ''Poxa, foi mal, eu não queria sequestrar seu coração e fazer dele picadinho, desculpa não ser recíproco, sabe como é, não da pra controlar... '' ALGO ASSIM! QUALQUER COISA, poxa, misericórdia.
Até eu que tenho ego frágil faço isso ás vezes, não é tão difícil, vai.
Olha que é o mesmo ego frágil que não quer ir falar na cara do ser 'oi, da pra ce me dar um fora de uma vez, tou precisando' Ô SANTO CORAÇÃO SAGITARIANO, CUSTA ASSUMIR A DERROTA DE UMA VEZ, chega uma hora que é melhor a humilhação bruta final do que a self-inflicted humilhação diária. Que que é isso, minha gente? Que que ta acontecendo?

Não. Sério. Para. Olha isso. Eu fugi do facebook. Agora tive que fugir do tumblr.
O negócio ta complicado. Eu não sei o que que eu tou fazendo que ta dando tão errado. Eu costumava superar as crush tão fácil. Poxa. De verdade, eu não dou conta mais de sentimentos, eles bugam meu raciocínio, que é a maldita coisa em mim que eu realmente gosto. Não posso passar por isso.

Se alguém tiver uma poção Supera-Crush, pelo amor do amado capeta, me descola isso, por favor.
Eu não vou durar muito mais.

Sadly, with love.
-Moron

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ser das Trevas (Recomendo que vocês não leiam isso)

Pra mim, ser das trevas não é só um estilo. Pode ser um estilo, ao qual eu me adequo de vez em quando. Mas pra mim é mais um tipo de coração. Um tipo como o meu, no caso, acho que devem existir corações mais trevosos que o meu e tal. Mas enfim.
Várias pessoas já me perguntaram ''como você pode ser das trevas e ter medo do escuro?'' É até facil de explicar mas não é fácil de entender, aí me dá preguiça. Eu tenho medo do escuro por que minha imaginação é muito fértil e minha crença em fitas paranormais é bem grande. Então sim,e u ja vi uns babadooks e outros capetas nas sombras do meu quarto. Eu acredito em parte que esses capetas tão ali de boa coexistindo com a realidade que eu tou e pá, que não tão super afim de me matar ou me possuir, mas o medo tá mesmo na existência da parada. Porque se as fitas que eu vejo existirem, o que me garante que existem fitas existindo por aí que são minhas inimigas na mesma quantidade das que são minhas amigas. Se pá o medo, em sua parte racional, é isso aí.
Mas pra um coração trrevoso como o meu. Eu consigo não ligar muito pra isso. Eu consigo tar tão de boa com a possibilidade da morte que nem me pergunto se alguma das sombras quer me matar. São momentos que eu tou de boa. Acontecem.
Agora, não é só isso que um coração trevoso faz. Claro que eu só posso falar do meu.
Não da pra passar uma semana inteira sendo feliz o tempo todo. Não dá. O coração não permite. Primeiro as coisas que te fazem feliz passam a ser indiferentes. Depois passam a te comer a paciência. Depois te dão raiva. E depois, quando as coisas acabam, volta tudo a ser indiferente.
A indiferença domina até as fitas mais triviais da vida. Não ligo se o sol vai nascer ou se por. Não ligo se alguém vai aparecer ou ir embora. Não ligo se o semestre vai começar ou acabar. Não ligo se vou viver ou morrer.
Não ligo pras pessoas, nem pros sentimentos delas, nem pros problemas delas. Todos os três só me fazem sentir cansaço, tédio, e impaciência.
É claro, que a melhor solução pra isso tudo é o suicídio. Mas pra mim não é mais uma opção.
Eu tenho um irmão que não quero deixar no mundo alone. Quando tudo mais é indiferente o sofrimento que ele tem ou terá não é indiferente. Eu me dei a responsabilidade de cuidar disso. De tirar ele dos caminhos que eu já passei que deram em sofrimento. Não sei se tenho praticado isso muito bem. Mas não me dou o direito de desistir. Não consigo.
Mas se alguma coisa no escuro do meu quarto me matar. Eu não vou ter desistido. Chega até a ser uma esperança.

domingo, 26 de julho de 2015

Ser estranho


Fumo flor
Durmo uma tarde inteira se precisar
tenho roupas, mochilas e sei la mais quantas fitas estampadas com caveiras
Gosto de arco-íris e trevas ao mesmo tempo
Não gosto que me acordem com informações
Tenho preguiça de fazer comida então como só tudo que for pronto
Gosto de músicas velhas, novas, corretas, incorretas, dançantes, deprimentes, pesadas ou felizinhas, sejam em italiano, japonês, francês, coreano, indiano, alemão, inglês ou português.
Sou viciada em cigarro, pepsi e inércia.

Devem ter um monte de outras coisas em mim que me faz um ser estranho. Mas enfim.
Existe um tipo de estranho que é suspeito, que pode ser perigoso. Mas que tipo de estranhices se encaixam nesse?

Fumar cabelo
Durmir vinte horas todo dia
Ter roupas mochilas e sei la mais quantas fitas estampadas com animais sofrendo
Gostar de carne bovina e humana
Não gostar que olhem nos olhos.
Ter preguiça de sair de casa, então não sair de casa nunca
Não gostar de músicas.
Ser viciado em em em.... não sei

Acho que nunca vi ou ouvi falar de um estranho assim. Mas será que isso faria dele um estranho tão estranho assim?

Por que tem alguns trejeitos estranhos que tudo bem e outros que dão medo? Quem fez o estudo de fumantes de cabelo ou apreciadores da carne humana são necessariamente perigosos?
Acho que a gente é ensinado a ter noções muito arbitrárias do que é um estranho perigoso e um estranho só fora do normal.
Talvez todo mundo mereça uma chance mesmo que isso possa vir a colocar nossas vidas em risco.

Talvez...



domingo, 5 de julho de 2015

O que se perdeu da linha

Tac-tac-tac-tac ... tac-tac-tac-tac ... tac
Os números não batiam. Desacostumado com a incoerência, Rafael não sabia o que fazer. Procurou alguma opção no monitor que pudesse registrar o erro dos dados. Nada encontrou. Refez a conta. Quarenta e dois nascidos na parteria D até ás 18 horas, Quarenta e um recebidos na ala 23 do berçário IV até á meia noite. Rafael deu de ombros, alterou o dado para o valor correto e seguiu para próximo formulário.

Chorava um pequenino ser perdido numa calçada fria. Ele não foi enxergado por ninguém, não havia lugar pra ele na programação do sistema. Ele não havia sido previsto, perdeu-se da linha de produção e não completara seu trajeto. Chorava no mais agudo volume que podia mas o sistema não era capaz de ouvi-lo, não era programado para ouvi-lo. Chorou até dormir.
Ao amanhecer a pequena coisa já havia desistido de chorar. A calçada já não mais estava tão fria. Mas a luz do sol machucava-lhe os olhos. Enrolou-se num canto e ali ficou até que imaginasse algo diferente pra fazer.

Incapaz de se comunicar, incapaz de entender muito do que acontecia a sua volta, mas extremamente hábil em não ser notado, um humano andava entre os outros. Seu maior temor era que algum deles que passavam viessem dizer-lhe algo. Sabia que qualquer que fosse este algo não seria capaz de entender. Não passara pelo programa educacional que os outros passaram.
Seu corpo era anormalmente esquelético. Era o único humano que não sabia a frequência correta da vitaminação. Também era o único que ultrapassava as quadras. Os humanos não precisam ultrapassar quadras uma vez que seus dormitórios e escritórios eram devidamente planejados pra estarem na mesma quadra. Cada quadra possuía exatamente tudo que os humanos que moram nela precisam; seus refeitórios, copulatórios, empórios, escritórios e dormitórios.
Sempre se perdia, andando e repetindo tudo que os outros faziam. Não sabia voltar por onde veio, uma vez que o que tinha á sua frente era exatamente igual o que tinha ás suas costas. Mas por um momento teve a impressão de que notara algo que não era igual áquilo que já havia visto. No fim de uma imensa rua havia um prédio pouco mais alto que os outros. Sentiu o desespero correndo por suas veias e correu. Agitava-se pela animação de finalmente descobrir algo que não fosse tediosamente igual a tudo. Suas energias acabaram no meio do caminho. Parou no refeitório de uma das quadras, serviu-se de uma das vitaminas esverdeadas que saiam igualmente gosmentas de todas as máquinas, tomou em dois goles e continuou correndo.
Com empolgação entrou no imenso prédio onde via muitos outros da sua idade. Andavam em filas, entravam em salas e saiam de salas, todos vestidos com muitas cores diferentes, com muitos padrões semelhantes também. Seguiu um deles, entrou numa das salas e sentou-se á uma das mesas. Num monitor via múltiplas imagens, reparou que os outros usavam fones na cabeça, então tratou de vestir o que encontrava sobre sua mesa. As imagens falavam, conversavam, e muitas coisas foram explicadas. Muitas coisas que antes confundiam ficaram esclarecidas.
Quando saiu de lá já era noite. E sentiu a capacidade de falar. Ouviu as grandes fotos brilhantes da rua e as entendeu. Viu as imagens coladas nos vidros dos refeitórios e conseguiu lê-las. Percebeu-se alfabetizado. Animou-se como nunca antes, inflou seus pulmões como nunca soube que podia. E correu. Pela mesma rua. Agora sabendo de que sentido havia vindo e para qual sentido ia. Conseguia ler. Conseguia entender. Passou a madrugada correndo. Rindo. Lendo. Entendendo. Se sentindo um deles.
Parou apenas ao encontrar um novo prédio. um diferente daqueles que haviam em todas as quadras iguais, e diferente daquele que o havia ensinado a entender. Era grande e baixo. Seguiu sua mais longa parede até onde encontrou janelas pra ver o interior.
 O cansaço carcomia seu corpo mas não impedia que a cena lhe espantasse. Pela janela via esteiras rodando sob vários carimbadores de etiquetas. Cada carimbador etiquetava com um nome diferente, mas não muito diferente. Sonolentos os bebês eram etiquetados de Bruna, Gustavo, Amanda, Vitor, e o que deviam ser seus sobrenomes eram séries de números, Vitor 6029384, Carol 7203846, Rafael 4019367, Ana 7192849 Pedro 5920893, Mariana 6723854, Lucas 4267402, Julia 6982367... Chegou a notar a repetição, ou quase repetição quando viu um Pedro 5920894. Não conseguia entender o porquê, mas aquilo tudo nauseava-lhe. Sentiu-se menos humano. Sentiu-se perdido e confuso como deviam estar aquelas crianças. Teve de continuar andando, com nojo da realidade que respirava, mesmo incapaz de entender, mesmo sem querer entender, mesmo sem saber se ia pra de onde havia vindo ou pra onde estava indo. Seguiu a grande rua até precisar sentar pra dormir, numa parede qualquer encostou-se em posição fetal e adormeceu.

Abriu os olhos quando sentiu que o ar brilhava demais. Viu raios de sol iluminarem seus pés de muito longe. Ainda era noite mas o sol conseguia alcançar seus membros. Ele nascia no fim de tudo, mas de uma linha que dava pra ver, era realmente distante mas o sol era capaz de percorrer aquela distância. Levantou-se em choque quando notou a ausência de prédios. Conseguia ver muito além do que jamais conseguiu. Todas as casinhas á sua frente eram pequeninas, muitas, mas pequenas, e cada vez menores quanto mais próximas do sol. Viu ao seu lado um par de portões. Dividiam a rua de um grande sítio, que possuía casas baixas mas bem maiores. Os portões não eram de pedra nem de metal. Eram cor de sujeira e nunca tinha visto um material daquele, por isso assustou-se quando rangeu ao tentar movê-lo. Entrou e foi andando, de olhos arregalados. Nunca vira tantas pessoas velhas juntas e desacompanhadas de robóticos, eles sempre estavam acompanhando os idosos á algum lugar. Aquele devia ser o lugar afinal. Os idosos reparavam sua presença, olhavam com simpatia, pondo os dentes a mostra. Não via humanos lá fora fazendo aquilo, mas era acalentador. Começou a ouvir um som semelhante ao do portão, mas repetitivo. E o seguiu. Viu o humano mais velho que já vira desde que percebeu que existia, sentado numa cadeira que o empurrava pra frente e pra trás.
Olhou pro senhor franzido na cadeira balançante. Recebeu o olhar de volta. De repente ambos sentiram a mesma paralisia, sentiram o mesmo enjoo e desespero. Suando frio, o velho viu o esquelético menino aproximar-se dele. O menino sentiu-se familiarizado ao notar as cores dos olhos do velho. Relaxou-se quando sentiu o quão inofensivo realmente era o menino que se aproximava. Ele tocou a mão do velho e nisso o corpo jovem apagou-se, como um velha memória que se esquece, e o velho lembrara.

Viu-se nos campos onde os alfabetizados eram recolhidos para trabalhar. Viu os idosos de sua época serem levados pra alojamentos tal qual o que estava agora. Viu a si e aos seus parceiros enquanto eram encaminhados para as alas de entretenimento. Lembrou-se de muitas horas que ficou assistindo a propagandas e propagandas, uma atrás da outra. Lembrou-se de ser alimentado cade vez pior, mas ficando cada vez mais saudável. Lembrou-se de ser selecionado e enviado uma vez por semana ao copulatório 84, de ir e voltar de lá milhares de vezes até começar a definhar de artrite. E então viu-se onde estava a muitos anos. Envelhecendo. Apenas. Descartado. Inútil ao sistema. Deixado para morrer.
Olhou a sua volta, pela primeira vez em muitos anos, olhou e enxergou. Viu tudo aquilo que o sistema havia planejado. Entendeu o que todos estavam fazendo, o que estava sendo feito a todo momento. Percebeu a diferença da vida que tinha quando ainda sabia o que era consciência e da vida a qual sobrevivia agora, se é que podia chamá-la de vida. Marejou seus olhos quando lembrou do que era sentir empatia. Sentiu a vida de todos a sua volta, sentiu sua quantidade. Seu padrão. Seu vazio. Lembrou-se do que era sentir agonia.
Sua única lágrima mal havia alcançado o chão quando morreu de parada respiratória.


                                                                                                                             -BHK2015

preciso escrever um conto apocalípitico

Eu fui fazer essa matéria por que achei mesmo mesmo que íamos discutir as possibilidades de um apocalipse zumbi, toda aula eu torcia pra o prof começar a falar disso, mas é, eu esperei demais de um tópico de história. Enfim, calhou do prof ser super daora e me deixar fazer uma trabalho do meu jeito. Agora eu tenho que escrever um conto apocalíptico pra entregar hoje e sua respectiva analise pra entregar dia 10.
 Bom, eu fui pensando num apocalipse real, sem sobrenaturalidades e sem a natureza destruir a  humanidade, cheguei a conclusão que preciso pegar tudo de bom que há ou deveria haver no mundo e destruir pra que fosse o apocalipse. Então decidi começar pensando tudo do mundo que eu acho que é bom. Pra listar. E pensar uma forma de destruir tragicamente.

Primeiro eu pensei na Liberdade; na Empatia; no Amor; nas Conexões; e cheguei a conclusão que eu já sei muito bem como destruir as relações pessoais sejam intra ou interpessoais. Então tentei pensar no que mais há de bom e aí vem as reticencias, o que mais?

Florestas, campos, ventos, lagoas, rios, mares, peixes, aves, ursos, ...
fiquei nessa, bucólica, e travei.